Maíra

Pequenos frascos, melhores saudades

In Uncategorized on julho 15, 2011 at 4:51 pm

É das pequeninices da vida que sentimos falta.

Saudades não dá dos grandes momentos. Destes, temos testemunhas ou fotografias que jamais decepcionam a memória. Tem sempre uma imagem para reavivá-la ou uma voz para relembrar. A saudade mora nos detalhes, nas menores imagens, cheiros, sons e toques perdidos na imensidão da lembrança. São os pequeninos momentos que nos traem, roubam nossas lágrimas, espremem o peito.

Sinto saudades do som do tim tim das cervejas que tomei com meus amigos de colégio e daquele ritual bobo de girar o copo em cima da cabeça. Como se isso fosse nos abençoar ou nos manter unidos pra sempre. Vez ou outra ainda tomamos cerveja juntos e até brindamos, mas nunca mais giramos copos em cima da cabeca. Ficamos velhos demais, ou sérios demais pra isso. Simplesmente esquecemos.

Sinto falta da saudade que alguém sentiu da minha mão quentinha acariciando seu rosto. Sinto saudades de ouvir uma voz cantando Barry White na babá eletronica enquanto eu amamentava, lutando contra o sono. Queria aquele sorriso roubado, quase ilícito de fazer alguma coisa pela primeira vez.

Queria sentir de novo o sol queimando na minha pele cheia de bronzeador. Dos tempos em que eu não me preocupava em ter câncer de pele e a vida era jovem demais para se dar conta que ia ficar difícil, que uma dia vamos todos terminar. Acelerator. Era assim que chamava o bronzeador que usávamos na beira da piscina, passando de mão em mão. Entre uma música e um mergulho, uma risada e a ressaca da noitada de ontem.

Faz tanto tempo.

Queria viver de novo as conversas de final de noite com meu pai, enquanto ele dedilhava o violão, “..Cálice, afaste de mim esta cálice..” contando histórias da juventude, da ditadura. Tenho essa esquisitice: saudades da saudade do outro.

Gosto de lembrar das férias em Ubatuba. Fazíamos “peeling” com areia no padastro da minha amiga e depois, de banho tomado, ouvíamos histórias de mitologia grega, comendo jujubas da Ofner. Quase sempre brigávamos pelas vermelhas. Qual o charme das balas vermelhas? Sempre motivo de discórdia entre os menores.

Sinto saudades de ver sessão da tarde e pegar no sono. Ouvir Roxette no CD player da sala, só tínhamos um em casa. Que falta me faz assistir Cinderela deitada numa almofada grande que tinha na casa da minha avó. Era início dos anos 80 e ela tinha videocassete. Comparava as fitas de uma chilena. Eu aprendi bibidibobidibu em castelãno.

Sinto falta de olhar nos olhos e compartilhar o momento do nascimento de um filho. Da vibração intensa, do calor que irradiou do nosso amor. Daquele olhar cúmplice que só os pais dos mesmos filhos tem. Um misto de orgulho, amor e perpetuidade.

De tudo que importa, a única saudades que não tenho hoje é de mim. Nunca estive tão perto daqui. Nas grandes e nas mais ínfimas, íntimas coisas. Sinto meu pulso, cada suspiro de mim inteira. Falta de mim, nunca mais.

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Aniversário da prole

In Uncategorized on junho 30, 2011 at 7:13 pm

Este mês minhas duas bebês fizeram aniversário. Carolina completou 1 ano, Stella 2. Confesso que é um sentimento estranho – uma espécie de orgulho e uma ponta de tristeza por ver a “bebezisse” das duas se esvaindo pelos dedos, pelas minhas últimas noites de sono mal dormidas e fraldas esperando para serem trocadas. Vou sentir falta do corpinho roliço de bebê, dos balbucios incompreensíveis e dos bracinhos estendidos, esperando por um afago. Meu irmão, padrinho da Carolina, me escreveu o seguinte texto, me cumprimetando pelo primeiro ano de vida da afilhada.

“Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável”

( Gibran Khalil Gibran )
Daí, eu chorei. Já que amor não me falta, apenas desejei ter força e sabedoria para ser um bom arco.

Corisco se entregou

In Uncategorized on maio 17, 2011 at 5:58 pm

“Se entrega Corisco (se entrega Corisco)
Eu não me entrego não! Eu não me entrego não
Eu não sou passarinho pra viver lá na prisão
Se entrega Corisco eu não me entrego não
Não me entrego ao tenente
Não me entrego ao capitão
Eu me entrego só na morte de parabelo na mão
Se entrega Corisco (se entrega Corisco)
Eu não me entrego não! Eu não me entrego não
Eu não me entrego não
Farrea, farrea povo
Farrea até o sol raiar
Mataram Corisco
Balearam Dadá
O sertão vai virá mar
E o mar virá sertão
Tá contada a minha estória
Verdade e imaginação
Espero que o sinhô
Tenha tirado uma lição
Que assim mal dividido
Esse mundo anda errado
Que a terra é do homem
Num é de Deus nem do Diabo.”

Pai, seu amor me fez quem ser quem eu sou. Obrigada por tudo.
Enquanto eu aqui estiver, você vive em mim.
Te amo.